Onde vamos comer?

A pergunta, bem comum nos dias de hoje, não era trivial tempos atrás. Comer e beber fora de casa representou uma mudança de hábito significativa na São Paulo da década de 1920, conforme as crônicas de Plínio Barreto destrinchadas pela pesquisadora Ana Luíza M. S. Andrade.

HISTÓRIA

Texto de Aline Carrijo, baseado na tese de Ana Luíza M. S. Andrade "Rubricas do cotidiano"

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Preocupações com higiene e o cuidado com a saúde também não eram costumeiros há um século. E, diferentemente do que se pensaria como um percurso “natural” da sociedade, essas modificações foram impulsionadas por um discurso supostamente neutro da ciência, que conduziria o país à “modernidade e civilização”, mas que também representava os sonhos de uma elite.

Analisar essas operações da ordem do prosaico, do cotidiano de homens e mulheres comuns, é importante para os historiadores que trabalham às margens da chamada História global – aquela dos grandes fatos históricos. A partir dessas investigações, é possível pensar as maneiras de ser e estar no mundo desses sujeitos e compreender como se dão as transformações sociais ao longo do tempo.

Essas são apenas algumas das reflexões trazidas pela historiadora Ana Luiza M. S. Andrade em sua tese de doutorado Rubricas do cotidiano. Ela mergulhou nas crônicas do jornal O Estado de S. Paulo para analisar as mudanças no dia a dia daqueles que viviam na capital paulista durante a década de 1920.

À época, São Paulo passava por modificações intensas e já figurava como grande centro irradiador de transformações na América do Sul, até mesmo em comparação à capital brasileira no período, Rio de Janeiro, e à capital argentina, Buenos Aires – cidades que antes se destacavam como motores da modernidade.

Se hoje a capital paulista é vista como a grande metrópole brasileira, diversos estudiosos identificam a década de 1920 como início do seu desenvolvimento como centro cosmopolita. Mas essas transformações não ocorreram de maneira “natural” ou sem conflitos, como é possível ver nas crônicas intituladas Coisas da cidade, escritas nesse período por Plínio Barreto – nome importante no jornal e na vida política e cultural.

Analisadas minuciosamente por Andrade, as crônicas apresentam um cenário diferente das imagens que costumamos ver em telenovelas, minisséries e filmes da São Paulo dessa época, com seus cafés “elegantes”, num período de grande desenvolvimento. Mostram disputas e “descontinuidades nesse caminho progressista”, além de questionamentos sobre a maneira que estes espaços se organizavam na cidade. Havia um desejo de “progresso e civilização”, mas o que faltava para que isso acontecesse?

Para responder a esse e outros questionamentos, a historiadora utilizou mais de mil edições do Estado de S. Paulo, organizadas e catalogadas por ela. A partir desse material, e de categorias de análise histórico-social, construiu um verdadeiro mosaico sobre as transformações vividas na década em questão.

Frequentar para ser visto

É a partir da análise das crônicas selecionadas que Ana Luíza M. S. Andrade nos mostra que “comer fora de casa” não surgiu como uma atitude visando apenas a alimentação e o suprimento de necessidades. O hábito, desenvolvido nas cidades ditas “modernas”, e particularmente em São Paulo na década de 1920, estava carregado de valores simbólicos, como o de distinção social.

Os estabelecimentos em que se ia para comer ou beber passaram a ser locais em que parte da população frequentava para “ser visto”, uma forma de se distinguir do ordinário. Além de indicar status e classe social, o ato de comer também passa a ser uma categoria de lazer e entretenimento.

Em uma das crônicas, publicada em 13 de agosto de 1921, fica nítida essa nova percepção sobre a alimentação como divertimento:

Ante-hontem, não fazia, precisamente, uma linda tarde, dessas que os moços de letras costumam descrever com céus de opala, ar frio e macio, e outras expressões bonitas. Mesmo assim, havia muita gente, sobretudo senhoritas e rapazes a flanar pelo triangulo, num vae-vem continuo e continuamente a entrar e sahir das lojas.
- Como os moços fazem compras em S. Paulo! Observou-nos um amigo estrangeiro.
- Não é para comprar, mas para tomar chá e ‘flitar’, que eles tanto procuram as lojas, a esta hora. Veja, ali vão três para o chá das moças do Mappin... Para ecurtar razões, também nós quisemos tomar chá com torradas e sem moças – mas na ‘Rotisserie’. O saguão estava repleto de estrangeiros, a bebericar o seu aperitivo ou simplesmente a olhar e conversar.

Essa modificação de hábito altera também os gostos culinários, compreendidos não apenas como algo natural, mas como formas de perceber o mundo. O historiador Paolo Rossi diz que “Comer não envolve apenas a natureza e a cultura. Situa-se entre a natureza e a cultura”. Ou seja, apesar de naturalizarmos nossos gostos, eles não se dão por uma operação da natureza. São construídos socialmente.

Em seu livro Comida como cultura, o historiador italiano Massimo Montanari afirma: “A comida não é ‘boa’ ou ‘ruim’ por si só: alguém nos ensinou a reconhecê-la como tal. O órgão do gosto não é a língua, mas o cérebro, um órgão culturalmente (e, por isso, historicamente) determinado, por meio do qual se aprendem e transmitem critérios de valoração”.

Entre esses critérios de valor, estão a própria distinção social, além do desejo de modernidade. Anseio que, no entanto, ainda não se encontrava efetivado como parte da sociedade paulistana esperava, e da qual Plínio Barreto era parte fundamental, como nos mostra Andrade.

Contra a liberdade do cuspir e escarrar no assoalho!

As crônicas de Plínio Barreto surgem como um elemento perturbador entre a São Paulo idealmente moderna e àquela que ainda lutava para se transformar. As contradições dos escritos do intelectual em relação às propagandas nos jornais, por exemplo, eram nítidas.

Os que vendiam alimentos e bebidas se apresentavam como “adequados às necessidades daqueles tempos”. Já as crônicas de Plinio e de outros jornalistas “atuavam como fiscais da vida moderna e buscavam assegurá-la denunciando tudo aquilo que considerava fora do padrão”.

O debate sobre higiene e asseio nos cafés foram temas constantes nas crônicas de Barreto. Ele se mostrava inconformado com a situação dos estabelecimentos e “denunciava cotidianamente o que se entendia como errado e atrasado – da organização e limpeza por parte do comércio às formas de se portar de seus fregueses”. Suas narrações se aproximavam do discurso médico, que se associava ao medo do contágio de doenças “provocadas pelo convívio com pessoas de todos os tipos, encontrando-se na rua ou nos espaços públicos”.

Na virada do século XIX para o XX, São Paulo viveu um inchaço populacional, ocasionado pela produção de café e pela transformação da cidade. Com pessoas vindas de todo lugar, gerava-se um clima de tensão provocado pela nova convivência imposta: a cidade era lugar do encontro. A preocupação passa a ser, então, não apenas com o asseio do local, mas também com aqueles que o frequentavam. Nessa crônica, publicada em 15 de junho de 1922, podemos ver na preocupação publicada na crônica (acima).

Denunciar a atitude dos fregueses, que cuspiam no assoalho, mostra que o cronista estava alinhado ao chamado “aparelho civilizador”. Uma estrutura social formada por códigos de posturas municipais, por essa vigilância da imprensa, pela educação nas escolas e até mesmo pelo autocontrole, “uma arma poderosa em momentos em que se buscava a transformação das condutas e da forma de conviver socialmente”.

Ao longo da história, houve vários livros dedicados a explicar as regras de convivência em sociedade, como, por exemplo, os manuais de etiqueta. Mas essa proteção do código de posturas sociais também ocorria por outros meios, como os jornais. Aqui, Plínio Barreto atuava como “promotor de um código de civilidades”. Andrade afirma: “É a ânsia por viver numa cidade condizente com seus desejos – possivelmente uma Paris nos trópicos – que Plínio Barreto nos deixa ler nas entrelinhas de suas publicações”.

Esta maneira de cobrar formas de agir socialmente refletiam os desejos de uma elite que sonhava com o progresso. Eram principalmente os médicos, engenheiros, bacharéis e advogados que produziam esse discurso oficial, técnico e científico, como forma de promover o progresso. Barreto utilizava dessa voz, que acompanhava “um ideal de neutralidade”, em suas crônicas.

O historiador Sidney Chalhoub fala da formação dos “pressupostos da Higiene como ideologia”, em que se formam diversos princípios destinados a levar o país ao “verdadeiro” e à “civilização”, em detrimento de uma análise social mais aprofundada. Segundo ele, essas ideias implicam a despolitização da realidade histórica, já que elas decidiam à priori e de maneira teoricamente neutra as decisões sobre políticas públicas no meio urbano. Assim, os conflitos sociais em geral, e outros problemas, como a desigualdade, não são levados em consideração.

Plínio Barreto era um dos difusores dessa ideologia. Para Andrade, ele não era um mandatário de todas as transformações, mas, sim, um sujeito histórico que “entrou na teia social, decodificou a linguagem da modernidade” e tentou garantir a chegada de São Paulo no tão sonhado progresso.

Desejo de modernidade de Plínio Barreto

A figura do cronista é central dentro da pesquisa. Nas colunas analisadas, o autor é, na verdade, anônimo, e se intitula como “P”. Foi após diversas leituras e uma análise mais ampla de outras publicações do jornal, que Ana Luíza M. S. Andrade descobriu a identidade de plínio. A historiadora defende que ele exercia um papel de “intelectual-mediador” na época.

Segundo Angela de Castro Gomes e Patrícia Santos Hansen, os intelectuais mediadores são pessoas que produzem conhecimento e comunicam ideias, se vinculando, direta ou indiretamente, à intervenção político-social. Dessa forma, atuam como atores estratégicos na sociedade. Em suas crônicas, Plínio faz denúncias, escreve diretamente à câmara de vereadores e à prefeitura, além de cobrar posturas do cidadão comum. Tinha, assim, uma atuação fundamental na vida política e cultural da época.

Suas crônicas, intituladas Coisas da Cidade, estiveram presentes no jornal O Estado de S. Paulo entre o final da década de 1910 e o da década de 1930. Mas é principalmente na década de 1920 que há um maior número de colunas. Portanto, a escolha desse período para análise foi não apenas pelo contexto da cidade, mas pelos próprios indícios apresentados pela fonte.

As colunas falam muito sobre expectativas em relação ao futuro: o que se esperava atingir naquela sociedade. Havia desejo de “modernidade”, de se assemelhar a cidades como Paris e Chicago, modelos urbanos para burguesias em vários países do mundo naquele momento, incluindo São Paulo. Em seus escritos, Plínio faz diversas alusões à cidade.

No entanto, apesar de o cronista ser um dos divulgadores da ideia dessa modernidade, ele questionava normas, valores e experiências da época. Criticava a falta de higiene dos cafés e de seus frequentadores. Se havia o desejo da modernidade, ela ainda não existia como realidade pelos olhos do cronista.

A partir das crônicas é possível ver, portanto, expectativas do que se esperava e imaginava para São Paulo. Apesar de geralmente serem lidas como algo pessoal, as expectativas são também “fruto do convívio social”, do debate de ideias, do ser social.

Além disso, o historiador Reinhart Koselleck explica que as expectativas também se realizam no hoje, é um “futuro presente”, pois representa o “ainda-não”, o “não experimentado: “Esperança e medo, desejo e vontade, a inquietude, mas também a análise racional, a visão receptiva ou a curiosidade fazem parte da expectativa e a constituem”. São, portanto, parte fundamental da realidade.

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Texto produzido por Aline Carrijo, baseado integralmente na tese de Ana Luíza M. S. Andrade, Rubricas do cotidiano: transformações urbanas e sociabilidades burguesas nas crônicas do O Estado de S. Paulo (década de 1920)

Revisão de conteúdo: Ana Luíza M. S. Andrade

Edição: Aline Scarso

(Todas as citações foram retiradas diretamente do texto da tese. Os números das páginas e outras informações não foram indicados para garantir a fluidez do texto. As referências completas estão devidamente dispostas no texto da tese).